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Dizer que o consumidor sozinho vai mudar o mundo é uma besteira

Quando veiculo uma denúncia de trabalho escravo envolvendo uma marca, o pessoal inunda minha caixa de e-mail com fotos em que uso o notebook (que nem é meu, e sim do escritório). Dizem que alguém que utiliza produtos feitos com exploração de chineses não pode denunciar nada.

Fico possesso com isso. Afinal de contas, qual a razão de escolherem as minhas piores fotografias para fazer memes? Sempre é uma em que apareço cabeçudo, um verdadeiro panetone de 1 kg fora da caixa. Por isso, defendo que um Brasil digno é um Brasil com Bolsa Photoshop.

Feito o desabafo estético, vamos lá. Um boicote tem mais chance de sucesso se ocorrer para pressionar determinada empresa a mudar de comportamento, principalmente causando apreensão aos seus investidores e financiadores sobre o risco da inação diante de um problema. Isso funciona após denúncias ligando grandes marcas próximas aos consumidores a graves problemas sociais e ambientais.

Uma empresa de computadores e uma confecção não vendem máquinas e roupas e sim estilo de vida. Do que somos. Do que gostaríamos de ser. Do que deveríamos ser – não em nossa opinião, necessariamente, mas de uma construção do que é bom e do que é ruim. Construção essa que vem, não raras vezes, de cima para baixo. Portanto, o ativo mais importante de uma empresa é sua imagem. Agora imagine: uma marca que levou eras para ser construída, associando-de a elementos hype, fashion, tchap-tchuras, ser conectada a algo degradante e triste como trabalho escravo?

Por mais que a atuação delas possa melhorar, é fato que Marisa e Zara, por exemplo, melhoraram seus sistemas de monitoramento de cadeia produtiva e suas políticas corporativas após auditores fiscais terem apontado trabalho escravo na produção de roupas vendidas por eles. E isso se deve, em muito, às redes sociais que repercutiram as denúncias publicadas pelos veículos de comunicação e os impactos que se sucederam a isso.

O “momento em que se sente medo da possível perda de clientes” consegue ser mais eficaz do que o “momento em que se percebe que houve perda de clientes” – pois quase sempre se constata que ela foi menor do que poderia ter sido. Pesquisas aqui e mesmo na mais consciente Europa mostram que o consumidor é, sim, um tremendo de um garganta. Atua bem menos do que fala nesses casos. E, normalmente, apenas enquanto o caso está na mídia, que é, por isso, a janela de oportunidade para fazer com que a empresa aceite mudanças.

Dar as costas pode funcionar durante um tempo, mas não indefinidamente. Principalmente quando a concorrência possui os mesmos problemas, como no caso de aparelhos de informática e comunicação.

Quando surgiram as primeiras denúncias de superexploração do trabalho (não era trabalho escravo) na Foxconn, que produz para a Apple, fui atrás. Percebi que neste caso, migrar para outro aparelho adiantaria pouco, pois a maior parte das marcas que considero de vanguarda em tecnologia de comunicação possuem problemas trabalhistas em suas linhas de montagem ou em suas cadeias produtivas. E, pior, por mais que tenham sido implantadas políticas para evitar que os minerais usados para fazer componentes de nossa revolução digital sejam extraídos com sofrimento de trabalhadores, isso ainda está longe de ser verdade.

Qual foi a solução neste caso? Integrar-me a grupos que pressionam a empresa por uma solução. Reuni-me com representantes da Fair Labor Association, que me explicaram o processo de auditorias que estavam realizando nas fábricas da empresa. E, como jornalista, passei a escrever constantemente sobre o assunto, pois tenho ciência da posição privilegiada de mediação de informação que (por enquanto) tenho na sociedade. Toda a pressão levou à melhoria considerável das condições de trabalho em três das fábricas envolvidas com a produção. Mas ainda precisam resolver um dos principais problemas, que é a redução da jornada de trabalho.

O que estou dizendo é que, dependendo do caso, você pode fazer pressão deixando de ser consumidor da marca ou sendo consumidor da marca. O segundo é mais difícil do que aquele em que se deixa de comprar, porque vai ter que acompanhar, cobrar, mandar e-mail, aporrinhar, conversar com outros consumidores, forçar uma mudança no comportamento.

Eu fiquei sem comer carne vermelha durante anos por conta do trabalho escravo e do desmatamento na Amazônia. O meu não-bife não criava impacto econômico algum, mas a minha escolha simbólica usada constantemente para explicar os problemas, sim. Desde 2003, rastreamos na Repórter Brasil mais de 600 cadeias produtivas diferentes. Sabemos onde está o problema, então adotei a postura e voltei atrás só quando pude comprar mais facilmente carne sabendo a origem. Nem todo mundo informa ainda, mas já é bem melhor que no passado.

Mas por que falei da carne? Estamos na fase do B5, ou seja, há 5% de biodiesel no diesel. Considerando que a principal matriz do nosso biodiesel é a soja e a segunda é o sebo bovino, o que fazer se você não quer consumir nenhum subproduto da carne vermelha? Vai a pé ou de bicicleta porque os problemas oriundos com a extração de petróleo são grandes. E o etanol, então…

Bloqueei marcas de roupas, de alimentos, até de móveis e filtros de água por conta do uso de trabalho escravo em suas cadeias de valor. Há, contudo, casos de trabalho escravo também na cadeia de eletrodomésticos, energia elétrica, combustíveis, automóveis, construção civil, madeira, erva mate, enfim. O fato é que, em alguns casos o boicote funciona e é viável, em outros, não. Então, como consumidores, temos que, além de realizar nossos protestos e externar nossa indignação, cobrar as pessoas certas.

Informação – O poder de propaganda de determinada marca é e será por muito tempo maior que a nossa capacidade de se organizar contra ela. É difícil manter o boicote puro, no dia a dia, com produtos “estruturantes” de nossa sociedade. Tem gente que acha que muda o mundo porque deixou de beber Coca-Cola. Simbolicamente, para ela, sim, é até reconfortante. Mas se isso não for organizado de forma coletiva, torna-se pouco útil.

Uma das propostas sempre colocadas à mesa – e que acho válida – é aumentar o preço de determinados produtos. Eu aceito pagar R$ 20 a mais no preço de um celular, se uma empresa topar reduzir, por exemplo, o dobro desse valor em margem de lucro por peça, e esses R$ 60 forem destinados a melhorar os salários e condições dos trabalhadores. Isso já foi possível com trabalhadores do tomate que melhoraram suas condições de vida quando alguns centavos foram acrescentados ao preço do ketchup nos Estados Unidos.

Mas algo que não podemos esquecer é que a responsabilidade principal não é do consumidor. Até porque nada do que discuti acima está nos manuais dos produtos que compramos. Não contam isso nas propagandas, pelo contrário. Escondem. Normalmente, essas informações vêm à tona quando o jornalismo as garimpa. Ou através de estudos e pesquisas de organizações da sociedade civil. Ou ainda quando são descobertas por consumidores e espalhadas em redes sociais.

Há uma cobrança em cima dos consumidores para que a sua atitude “consciente”, e apenas ela, leve à mudança da sociedade. Normalmente essa visão simplista é compartilhada por quem é fã daquelas histórias feitas para inspirar, mas que me deprimem – como a da pessoa que devolvia, solitária, estrelas-do-mar de volta à água e não se importava que aquilo era uma gota num oceano porque estava fazendo a sua parte.

Essa discussão tem o mesmo DNA das críticas do nível “Tá com dó? Leva para casa!”, ou seja, quem reclama da situação de sem-teto, pessoas em situação de rua ou das que vivem em habitações precárias é criticado por não hospedá-los em sua casa (!) Como se o ato de criticar ou denunciar estivesse condicionado ao de resolver o problema.

Em ambos os casos, a responsabilidade é da sociedade como um todo. A moradia e os direitos de trabalhadores ou a proteção ao meio ambiente são previstos na Constituição e, portanto, o Estado tem o dever de garanti-los. Não são apenas ações individuais que vão resolver o déficit qualitativo e quantitativo de residências, o trabalho escravo ou o desmatamento ilegal, mas processos estruturais que mudem as prioridades do poder público e o comportamento do setor empresarial.

Enfim, sem informação plena, o consumidor não é capaz de ser cobrado por isso. Mas as empresas, sim, porque têm mais poder para isso.

Vivemos um tempo em que a desculpa do “eu não sabia” está caindo de velha. Primeiro, porque é possível investir no mapeamento de setores e áreas de risco em que as atividades de uma empresa estão inseridas e monitorar cadeias produtivas e redes de fornecimento.

Um diretor de uma grande montadora de veículos um dia me disse que eles não tinham recursos para fazer mapeamento de cadeias produtivas e descobrir problemas. Ponderei que se ONGs conseguem fazer isso com muito menos dinheiro, mostrando que suas linhas de montagem estavam impregnadas com peças com trabalho escravo ou desmatamento ilegal, eles poderiam facilmente. Há instrumentos que servem de base para as políticas empresariais, como a “lista suja” do trabalho escravo e a lista de embargos do Ibama. Tá lá, é só rastrear.

A discussão não é “poder” começar um processo de desenvolvimento dessas políticas, mas sim “querer”. Tenho exemplos de empresas que já fazem isso e, consequentemente, ganharam meu respeito e a minha opção de escolha na hora de adquirir algo. Mas elas não fazem isso para atender aos chatos, mas porque entenderam que precisam se preparar para um mercado em que denúncias de problemas sociais serão cada vez mais usadas como ferramentas de concorrência.

Particularmente, evito produtos com trabalho escravo no Brasil até que a empresa em questão tenha quitado suas pendências com os trabalhadores e o poder público e adotado políticas corporativas de combate a esse problema em sua cadeia produtiva. E acompanho de perto os desdobramentos porque trabalho com isso diariamente. Ou seja, não sou referência.

Mas também não tenho como monitorar todas as outras formas de exploração do ser humano e do meio ambiente.

Não defendo que produzamos nossa própria roupa, moremos em cavernas ou plantemos capeba ou pariparoba para remédios. Mas cada um de nós tem que escolher quais são as batalhas que quer lutar e as quais acredita que possa influenciar e se dedicar a elas. São escolhas sim, até porque se bloquear tudo o que foi feito com sacanagem contra os trabalhadores, você, que mora em uma grande cidade, não vive.

Se cobrarmos explicações das empresas toda vez que denúncias vierem à público, o que pode incluir boicotes para que nos façamos ouvir, certamente a percepção de investidores dessas mesmas ou de seus clientes será diferente. E isso irá gerar impacto por mudanças.

Bancos públicos e privados, além de centenas de empresas, têm atuado para restringir os negócios com quem apresenta trabalho escravo por conta de acordos empresariais ou pela ação direta do Conselho Monetário Nacional.E mesmo que as quedas em bolsas de valores registradas por empresas envolvidas nessa situação tenham desaparecido nos dias seguintes ao ocorrido, elas funcionam como um alerta para a empresa, para o setor em que está inserida e seus investidores.

Vira e mexe um leitor me chama de “comunista” por divulgar casos de trabalho escravo ou de desmatamento ilegal e suas repercussões. Dizem que isso é um desfavor à economia brasileira.

Acho graça. Pois, que eu saiba, o empresário depende do livre acesso às informações para que suas decisões de negócios sejam tomadas considerando-se todas as variáveis possíveis. E o mesmo vale para o consumidor, que precisa de informação para comprar conscientemente.

Isso não é comunismo, caro leitor. É capitalismo. Mas não era você que gostava tanto dele?

Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política.

Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.




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