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Academia de ciências propõe criar “ITA da Amazônia”

Seis pesos-pesados da ciência brasileira colocaram na internet na semana passada uma singela proposta: salvar a Amazônia da sanha das motosserras implantando na região um pólo científico e tecnológico. Em dez anos, três institutos de pesquisa de ponta e duas universidades começariam a gerar riqueza para a região, inventando formas de agregar valor a produtos derivados da imensa biodiversidade local e inseri-los em mercados globais.

A pesquisa e desenvolvimento realizaria, assim, o sonho dos ambientalistas de desenvolver o Norte sem derrubar a floresta.

Quem acha que essa “revolução científica e tecnológica”, como seus proponentes a chamam, é uma utopia produzida por acadêmicos desconectados da realidade deveria olhar o exemplo de uma cidadezinha chamada São José dos Campos, que em 1950 era uma vila provinciana e atrasada de pouco mais de 20 mil habitantes.

Naquele ano, o visionário marechal Casimiro Montenegro Filho criou o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, destinado a formar engenheiros para alavancar a indústria aeroespacial nacional –algo estratégico para o governo na época– e instalado em São José dos Campos. Menos de duas décadas depois, uma empresa criada com a mão-de-obra egressa do ITA, a Embraer, produziria o primeiro avião brasileiro. Hoje, São José dos Campos abriga a quarta maior indústria aeronáutica do planeta.

Segundo os seis pesquisadores, o exemplo do ITA pode se repetir na Amazônia. A proposta inclui turbinar a pós-graduação local, formando 700 novos doutores por ano a partir de 2009. Em três anos, o número de PhDs da Amazônia subiria de 2.800 para 4.700.

O custo de “tirar o atraso” da ciência amazônica foi calculado em R$ 3 bilhões por ano em um prazo de dez anos no documento, postado no site da Academia Brasileira de Ciências (www.abc.org.br). Dito de outra forma, o Brasil precisará desembolsar R$ 30 bilhões, ou uma vez e meia o custo das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, para inventar um modelo de desenvolvimento novo e preservar seu maior patrimônio.

Para os pesquisadores, a troca é mais do que justa, ainda mais considerando tudo o que o governo tem dado de subsídio há quatro décadas para alimentar o modelo de produção agropecuária amazônico, que gera devastação, concentração de renda e violência fundiária. R$ 30 bilhões é o preço de colocar a Amazônia no século 21.

“A Amazônia vive um crescimento econômico do século 19, destruindo floresta pra fazer carvão e destruindo fauna e flora pra botar pastagem. Poucas pessoas conseguiram internalizar a realidade atual do século 21”, disse à Folha a geógrafa Bertha Becker, professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Uma das maiores pensadoras vivas da questão amazônica, Becker se uniu ao climatologista Carlos Nobre, do Inpe, ao matemático Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências, ao químico Hernan Chaimovich, da USP, ao biólogo Adalberto Val, diretor do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e ao geólogo Roberto D’Allagnol, da Universidade Federal do Pará, para produzir o documento.

O texto teve boa acolhida em pelo menos uma instância do governo. O ministro Roberto Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos), encarregado pelo presidente Lula de desenvolver a Amazônia, gostou da proposta dos cientistas e ficou de apresentá-la ao Planalto.

“Há demanda por produção maior, sim, mas não é preciso destruir tudo para crescer. O que marca hoje nosso sistema econômico é a expansão econômica baseada numa revolução científico-tecnológica. A Amazônia tem toda essa parte devastada, mas tem uma grande extensão de floresta ainda de pé. E essa floresta é um potencial fantástico para esse novo modo de produzir baseado na ciência e na tecnologia. Não podemos ficar só com uma política de áreas protegidas, por duas razões: porque elas não estão protegendo e porque não geram riqueza e trabalho.

Áreas protegidas não podem competir com pecuária e soja e madeira”, diz Becker. Carlos Nobre completa: “Não queremos vencer o jogo com a pecuária. Queremos começar outro jogo”.

Para o pesquisador do Inpe, se o governo federal bancar a idéia, o Brasil poderá se tornar “o primeiro país tropical desenvolvido”. De sua sala em São José dos Campos, Nobre explicou a proposta à Folha. Leia a entrevista.

Folha – Há vários anos cientistas como Bertha Becker e o sr. mesmo apontam a necessidade do desenvolvimento científico e tecnológico como única saída para a Amazônia. Por que só agora a Academia Brasileira de Ciências traz essa proposta?

Carlos Nobre – Boa pergunta. Vários de nós, isoladamente, gerenciando programas de pesquisa na Amazônia, estávamos levantando essas questões. E elas não tinham repercussão. Quando a gente estava desenhando a segunda fase do LBA [Experimento em Grande Escala da Biosfera e Atmosfera na Amazônia, um programa coordenado por Nobre que envolveu centenas de cientistas de vários países], falamos dessa questão de ciência e tecnologia para a sustentabilidade. Mas no seio dos órgãos de financiamento essas coisas não tinham repercussão muito grande.

No momento em que os fundos setoriais foram criados e reservaram uma fatia de 30% dos fundos para projetos de ciência e tecnologia na Amazônia, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste, houve uma falsa sensação de segurança. Isso escondeu um pouco o fato de que se precisa mudar a escala. Por isso usamos o termo revolução.

A taxa anual de crescimento do uso de dinheiro de pesquisa na Amazônia é maior que a média do Brasil, mas ainda é muito pequenininha. A ciência amazônica é 2% a 3% da ciência nacional e cresce 5% ao ano, enquanto o resto do Brasil cresce, digamos, 4,5%. Vai demorar 150 anos para ela ficar significativa. O documento tenta quebrar esse paradigma financeiro.

É outra escala. São R$ 3 bilhões por ano e o foco em um novo paradigma, de valorização da floresta em pé, dos serviços ambientais. Nós acreditamos que, se o Brasil tiver sucesso nisso, vamos ter uma coisa que nenhum outro país tem: como desenvolver uma região expressiva do território brasileiro através de um conceito novo, de uso sustentável da biodiversidade. Se o Brasil inventar um modelo, será o primeiro país tropical desenvolvido.

Não estamos dizendo que não é importante melhorar outros indicadores, como educação e saúde das populações amazônicas. Mas achamos que esse novo modelo não vai emergir naturalmente; ele precisa ser inventado. Um desafio é que nós temos muito poucos exemplos de desenvolvimentos tecnológicos nacionais…

Folha – Você tem o caso do Centro de Biotecnologia da Amazônia, que foi um fracasso.

Nobre – É possível conceitualizar que a gente poderia, num intervalo de dez anos, sair do zero ou quase zero e chegar a um laboratório de pesquisa que produza resultados tecnológicos que alavanquem indústrias, como temos em São José dos Campos, em Campinas, em São Carlos, em Campina Grande? A resposta da academia é um sonoro “sim!” Cidades médias da Amazônia já atingiram um nível de qualidade de vida que torna possível atrair cientistas, tecnólogos, engenheiros para montar esses laboratórios.

Folha – Alguém do LBA emigrou para a Amazônia?

Nobre – Os jovens doutores estão ficando na Amazônia, na medida em que concursos ocorrem nas universidades da Amazônia. Lógico que o número de concursos nas áreas do LBA [ciências da Terra] é pequeno. O campus de Santarém da Universidade Federal do Pará criou um curso de física ambiental e contratou 12 doutores do LBA. É uma pequena gota d’água, mas provou-se que é possível fazer ciência de qualidade [na região].

Agora, você não forma em dez anos um laboratório desses se você não atrair líderes de pesquisa que consigam montar essas estruturas. Nós, da academia, achamos que a Amazônia atrai tanto o interesse mundial que, se o governo garantisse [verba], seria possível. É por isso que o número de doutores que estamos propondo formar são altos: 1.400, 2.800. Não podemos falar na escala de 10, 15 doutores. Você não compete internacionalmente. Um único laboratório de química da Unicamp tem 85 doutores. Não dá para imaginar que você vai descobrir uma coisa nova com meia dúzia de gatos pingados.

Uma vez eu visitei o Serviço Antártico Britânico. Eles têm US$ 400 milhões por ano. Um instituto, para pesquisa básica, gasta muito mais que todos os países amazônicos juntos em pesquisa amazônica.

Folha – A Unicamp atrai estudantes do Brasil todo porque eles sabem que terão emprego em indústrias assim que se formarem. Mas um sujeito que vá para a Amazônia agora não pode ter essa expectativa.

Nobre – É por isso que tem de começar pelo instituto científico e tecnológico. A Unicamp é um excelente exemplo, o ITA também é. Você transforma uma região se tem um núcleo pensador, que te dá instrumentos de desenvolvimento. Isso é a tecnologia. Por isso tem de ser fora do eixo Belém-Manaus.

Em cidades médias, como Santarém. Tem de fazer para a Amazônia o mesmo que o ITA fez para São José dos Campos.

Em 1950, São José dos Campos tinha vinte e poucos mil habitantes. Imagine tirar o ITA, que foi criado no Rio de Janeiro, e colocar numa cidade de 20 mil habitantes. Aquilo foi uma coisa muito visionária. Aqui ele alavancou um enorme desenvolvimento, uma indústria.

É esse o modelo que a gente tem em mente. Com a vantagem de que hoje os ciclos de desenvolvimento tecnológico são mais rápidos. O do ITA começou em 1950 e em 69 já tinha o protótipo do primeiro avião feito no Brasil, o Bandeirante. Hoje esses ciclos podem ser de 10, 15 anos no máximo. É a escala de tempo que a gente imagina.

Folha – Por que o Inpa e o Museu Emílio Goeldi, que já estão mais do que estabelecidos na Amazônia, não poderiam ser esses centros?

Nobre – O documento coloca mais de 50% de todos esses R$ 30 bilhões em dez anos nos centros existentes. Mas, além desses centros, há a necessidade de coisas novas, uma ou duas universidades com foco muito claro em desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais. E com um viés tecnológico. Eu acredito nas coisas novas porque você as cria com uma missão. O ITA só pôde atingir o objetivo que conseguiu porque, na sua criação, o marechal Montenegro lutou contra os conservadores da Aeronáutica daquela época, que achavam que ele deveria apenas formar engenheiros para a manutenção das aeronaves.

As universidades novas e os institutos de tecnologia têm de ser criados com um foco muito específico, para criar a condição de capacitação de recursos humanos na escala de qualidade que o ITA representou.

Queremos atrair estudantes de alto nível e, a partir desses pólos, alavancar o setor industrial, a agregação de valor da biodiversidade. O documento fala na globalização de 50 produtos da biodiversidade amazônica. Não estamos falando de nada super-sofisticado de biotecnologia, mas sim de dar escala global a coisas que existem, e isso já seria muito importante. E, junto com isso, um aspecto de mais alta tecnologia de ponta, que é a biotecnologia e a chamada biomímica. Existe por exemplo a patente de um novo método de fibra óptica inspirado na maneira como os cristais da asa de uma borboleta transmitem luz com menos perda. Isso é nanotecnologia.

Dá para fazer isso? Se laboratórios no interior de São Paulo conseguem fazer inovação tecnológica de nível mundial, nós temos de acreditar.

Folha – R$ 3 bilhões por ano é muito dinheiro?

Nobre – Quando você pensa em orçamento para ciência e tecnologia no Brasil como um todo e especificamente para a Amazônia, parece muito. Mas é preciso demonstrar que não é.

Se você está em uma região atrasada e quer dar um salto tecnológico, você precisa fazer como a Coréia do Sul, que passou a gastar há muitas décadas uma porcentagem do PIB (Produto Interno Bruto) em desenvolvimento tecnológico superior ao que países desenvolvidos gastam. Na nossa proposta, após dez anos, teremos um investimento adicional de 1,9% do Produto Regional Bruto.

Se a gente fosse fazer um cálculo, historicamente o modelo de desenvolvimento agropecuário da Amazônia sempre foi construído em cima de subsídios. Terra gratuita, subsídios a atividades agrícolas com juros negativos por décadas. O Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) calculou em R$ 1,9 bilhão os subsídios que os pecuaristas da Amazônia receberam só do Fundo Constitucional do Norte entre 2003 e 2007.

Aqui, são R$ 3 bilhões por ano para tentar alavancar em dez anos uma indústria internacionalmente competitiva e uma nova geração de engenheiros, biólogos, climatologistas que vão desenvolver a Amazônia de forma sustentável, do mesmo jeito que o ITA criou uma geração de engenheiros aeronáuticos que criaram a quarta maior indústria aeronáutica do mundo. Parece muito. Mas, quando você olha os subsídios implícitos em 40 anos de desenvolvimento agropecuário na Amazônia, não é.

Folha – O sr. falou em globalizar 50 produtos da biodiversidade. O documento fala também em recursos aquáticos e minerais. Pode me dar um exemplo?

Nobre – A Embrapa e o Inpa identificaram mais de 200 produtos a partir dos quais você poderia desenvolver cadeias produtivas, desde a prospecção da biodiversidade até a domesticação, aumento da eficiência na produção, industrialização e a agregação de valor. Eu uso um exemplo tão simples que a gente se pergunta por que isso não foi feito no Brasil.

Uns surfistas da Califórnia descobriram o açaí no Nordeste. Gostaram da idéia e, no dia que aposentaram a prancha, resolveram abrir uma indústria de açaí. Levaram o açaí do Brasil para a indústria de transformação na Califórnia. E, em poucos anos, eles tinham 16 produtos à base de açaí: nutracêuticos, farmacêuticos, cosméticos etc. Eles venderam a Amazônia, embalada na forma de 16 produtos com valor agregado de uma única fruta. Por que a indústria de transformação tecnológica do Brasil não pegou o açaí e fez a mesma coisa? Eu não tenho resposta.

Acho que é um imenso complexo de inferioridade. A gente olha essas coisas amazônicas e já põe de lado. A gente precisa largar esse preconceito. Por que um produto da biodiversidade da Amazônia não pode atingir uma escala global e entrar num mercado global? A Amazônia tem uma grande vantagem: ela é uma marca muito forte. Não queremos vencer o jogo com a pecuária; queremos começar outro jogo.

Folha – O sr. trocaria São José dos Campos por Santarém?

Nobre Trocaria. Mas, se você publicar isso, minha mulher tem um ataque.

Fonte: Folha Online
Por: Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha de S. Paulo




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