Brasil lidera expansão em transgênicos no mundo e deve superar Argentina
O Brasil registrou uma expansão de 3,5 milhões de hectares nas lavouras transgênicas em 2007 em relação a 2006, crescimento maior que o do líder líder mundial nesse tipo de cultivo, os Estados Unidos, que foi de 3,1 milhões de hectares. O Brasil, já na safra 2008/2009, também deve superar o segundo colocado, a Argentina.
“Para a safra 2008/2009, o Brasil já deve se igualar ou mesmo superar a Argentina. Isso tem a ver com o potencial de crescimento: a Argentina já não tem muito mais área para expandir [a produção]“, disse Anderson Galvão, diretor da organização não-governamental ISAAA (Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agrobiotecnológicas, na sigla em inglês) no Brasil, que divulgou estudo sobre o cultivo de transgênicos no mundo.
“Até por conta do tamanho, o Brasil tem uma tendência natural a crescer”, disse Galvão. De acordo com o documento, os agricultores brasileiros cultivaram 15 milhões de hectares de lavouras transgênicas no ano passado –em 2006, a área cultivada com transgênicos era de 11,5 milhões de hectares, avanço de 30%.
A expansão no Brasil em 2006 havia sido de 22%, e no ano passado (ao crescer 30%) o país só foi superado pelo crescimento visto na Índia –que cresceu 63%, passando de 3,8 milhões de hectares para 6,2 milhões. A Argentina, por sua vez, registrou um crescimento de 6% (1,1 milhão de hectares) em sua área agricultada com transgênicos –19,1 milhões de hectares.
Os Estados Unidos mantêm, no entanto, a posição de maior produtor mundial de transgênicos, com uma área plantada de 57,7 milhões de hectares (50% de todas as lavouras deste tipo no mundo), com um crescimento no ano passado de 40% na área dedicada ao milho transgênico (matéria-prima da produção de álcool combustível no país).
Mesmo que o Brasil venha a ocupar o segundo lugar, ainda se manterá distante do primeiro colocado. No entanto, segundo Galvão, a adoção da biotecnologia no Brasil deve se assemelhar à dos EUA –o que se vê principalmente no caso da soja transgênica, que pode chegar a 80% do plantio nacional, como nas lavouras americanas.
Mesmo no algodão os níveis se aproximam: tanto nos EUA como no Brasil, a produção de algodão transgênico chega a 46% do plantio nos dois países.
Mercado
Galvão destacou que “nunca fez sentido” dizer que o Brasil perderia espaço no mercado devido ao cultivo de produtos transgênicos. “Uma das coisas que nunca fez sentido foi dizer que o Brasil iria perder mercado. Vendo-se o caso não só do Brasil, mas da Argentina, por exemplo, não foi isso que aconteceu.”
Ele lembrou que a produção argentina de soja transgênica é de mais de 95% do plantio total de soja naquele país, e que o consumo interno é baixo, sendo quase tudo, assim, destinado à exportação. “Não faz sentido dizer que há resistência do mercado” ao produto transgênico, afirmou.
Apesar da redução de custos no cultivo de transgênicos, em razão da diminuição ou mesmo da dispensa do uso de pesticidas e outros defensivos agrícolas, os preços das commodities agrícolas têm registrado altas expressivas nos mercados internacionais. Isso, segundo Galvão, se explica pelo aquecimento da demanda.
“A biotecnologia não é a salvação de todos os males, a única solução; é, sim, uma ferramenta importante para ajudar a ganhar produtividade e dos agricultores a encontrar lugar para seus produtos no mercado.
Ele destacou ainda que há ganhos do ponto de vista ambiental –também pela redução no uso de pesticidas, e pela menor exposição dos agricultores a produtos químicos agressivos.
Segundo a ISAAA, da área total de transgênicos plantados no Brasil, cerca de 14,5 milhões de hectares foram cultivados com soja tolerante a herbicida. Os outros 500 mil hectares foram dedicados ao cultivo do algodão resistente a insetos, liberado para comercialização em 2005.
Milho
A CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) ratificou a decisão de liberar o plantio e comercialização de duas variedades de milho transgênico: a Guardian (desenvolvida pela empresa norte-americana Monsanto e resistente a insetos) e a Libertlink (da alemã Bayer e resistente ao herbicida glufosinato de amônio, utilizado na pulverização para combater ervas daninhas).
O ministro de Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, admitiu, entretanto, que “há sementes que estão sendo utilizadas sem a devida autorização” e que o Ministério da Agricultura deve regular a questão.
O estudo da ISAAA mostrou que o milho representou 47% do mercado global dos produtos transgênicos no ano passado, respondendo por US$ 3,2 bilhões do total de US$ 6,9 bilhões a que chegou no ano passado, segundo dados da consultoria Cropnosis. A soja transgência, por sua vez, movimentou US$ 2,6 bilhões (37% do total).
Os números mostram uma inversão no quadro: em 2006, o milho representava 39% do mercado global de transgênicos, enquanto a soja liderava o ranking com 44%. Para 2008, a estimativa é que o mercado de transgênicos movimente cerca de US$ 7,5 bilhões.
Emergentes
Os países emergentes responderam por 43% da área global cultivada com produtos transgênicos (contra 40% em 2006), atingindo 49,4 milhões de hectares. O crescimento entre 2006 e 2007 nesses países foi de 8,5 milhões de hectares (21% em relação ao período imediatamente anterior) contra 3,8 milhões de hectares (6%) dos países desenvolvidos, na mesma comparação.
Dos seis principais países produtores de transgênicos do mundo, quatro são emergentes (Argentina, Brasil, Índia e China) e que os cinco principais países em desenvolvimento que plantam lavouras transgênicas abrangem todos os três continentes do Sul: Índia e China na Ásia, Argentina e Brasil na América Latina e África do Sul.
No mundo todo, a área global de plantações transgênicas cresceu 12,3 milhões de hectares em 2007 (12% em relação a 2006), chegando a 114,3 milhões de hectares cultivados.
O número de países que usaram biotecnologia em suas lavouras chegou a 23, com o início do plantio na Polônia e no Chile –que integram agora o grupo formado por EUA, Argentina, Brasil, Canadá, Índia, China, Paraguai, África do Sul, Uruguai, Filipinas, Austrália, Espanha, México, Colômbia, França, Honduras, República Tcheca, Portugal, Alemanha, Eslováquia e Romênia.
Pequenos produtores
A ISAAA informou que, dos 12 milhões de produtores que adotaram lavouras transgênicas no ano passado, cerca de 11 milhões foram agricultores familiares de países em desenvolvimento. Em 2006, 10,3 milhões de produtores haviam plantado transgênicos, dos quais 9,3 milhões possuíam pequenas porções de terra.
Entre os pequenos agricultores que adotaram a biotecnologia em 2007, a maior parte plantou algodão Bt (que pode render até 50% mais que as variedades convencionais por ser resistente a insetos), sendo 7,1 milhões na China e 3,8 milhões na Índia. O restante, 100 mil produtores de outros países, optaram por outras culturas transgênicas.
Fonte: Folha Online
Por: Vinicius Albuquerque
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