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Quadros com o DNA ou as impressões digitais dos clientes exploram o filão da “arte personalizada”

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Quadro feito com o DNA do cliente (reprodução)

A obra de arte perdeu sua aura, constatara Walter Benjamin em seu célebre ensaio de 1935. Essa enigmática mistura de extrema proximidade e profunda distância que caracteriza toda criação artística teria sido acuada pelos avanços das técnicas de reprodução mecânica e a suposta desaparição do original1.

Com um otimismo que aflorava da mais áspera melancolia, naqueles longínquos anos 30, Benjamin entrevia um futuro sombrio para as belas artes da era burguesa, mas não deixava de admitir que algo de muito novo poderia advir dessa catástrofe. Mais de sete décadas depois daquelas lúcidas e polêmicas reflexões, nos agitados tempos atuais, algo deveríamos poder dizer sobre as decorrências daquele desafio.

Em uma época em que a produção seriada, o mercado de massas e a “reprodução técnica” perdem prestígio por conspirarem contra a distinção, com suas tendências padronizadas que tudo homogeneizam, hoje proliferam as estratégias mercadológicas de singularização do consumidor. Assim, com a gradativa segmentação dos públicos e a customização dos diversos produtos e serviços, exacerbou-se uma ânsia renovada por possuir qualquer coisa de original, única, autêntica, exclusiva. Algo que, de algum modo, seja (ou que pelo menos pareça) envolto em um halo tão raro como bem cotado na contemporaneidade: sim, a velha aura.

Nestes alvores do século XXI, portanto, aquilo que ainda chamamos “arte” se fusiona incestuosamente com as fábulas da tecnociência e com as maravilhas do marketing, para dar a luz a fenômenos inusitados, tentativas de resgatar, a todo custo, aquela aura fatalmente perdida -e de vendê-la, é claro.

Em um discreto rodapé da versão revisada do seu artigo, Benjamin chegou a mencionar um possível desvio da aura agonizante. Aquela misteriosa qualidade única poderia se deslizar do objeto artístico em direção ao colecionador: esse adorador de fetiches que, “pela própria posse da obra de arte, participa de seu poder cultural”2.

Graças ao mero fato de possuir um objeto com aura, o colecionador sente-se ele mesmo um pouco aurático. E o que dizer se esse brilho evoca, mesmo que de forma remota e confusa, o âmago mais profundo dele próprio, o cerne vital do feliz possuidor dessa obra de arte? Pois melhor ainda, evidentemente.

Por isso não surpreende, neste contexto, que os “quadros de DNA” sejam os “produtos de arte” mais vendidos dos últimos tempos. Trata-se de grandes telas que representam o perfil genético de seus proprietários, em cores vibrantes e formatos à medida.

Para além da duvidosa qualidade artística, porém, a sua validade científica é nula, pois de fato essas obras não contêm material orgânico ou código genético algum. Trata-se apenas de uma representação pictórica dessa informação, sem nenhum valor forense ou científico. Mas esse detalhe não impediu que se convertessem no último alarido da moda artística, pois curiosamente não parece ser nem a ciência nem a arte o que interessa aqui, mas outra coisa. O quê, então? O reluzente ego do consumidor -ou do “colecionador”.

Não por acaso, quadros desse tipo “já adornam muitos dos restaurantes mais badalados do mundo”, além de marcarem presença “nas casas de celebridades, colecionadores de arte e executivos de grandes empresas, e de outros que reconhecem a qualidade única destas obras de arte”, confirmam, orgulhosos, seus criadores. A mídia também adorou a novidade, com extensas reportagens em meios como o “New York Times Magazine”, HGTV, “Today Show” e MSNBC.

Enquanto comemora o sucesso, a empresa responsável pela brilhante idéia -a canadense DNA11- explica que sua tarefa consiste em criar “arte abstrata personalizada e original, a partir de uma amostra do seu DNA ou de suas impressões digitais”. Cada peça é única “como você”, garante a firma: “pessoal, bela, absolutamente singular”. Por isso, um dos idealizadores da iniciativa, Nazim Ahmed, explica que suas criações se destinam “àqueles que desejam possuir uma representação exclusiva do que eles são”.

Mas, por via das dúvidas, se por acaso você não gostar do resultado, eles se comprometem a devolver seu dinheiro. Nada se perde, então, caso a expressão pictórica do seu genoma não for tão bonita como você esperava, ou se o resultado final não combinar muito bem com o mobiliário do seu lar. No entanto, quem ousaria ignorar essas “obras-primas modernas que são realmente os retratos intemporais deste milênio”, sabendo que elas se inspiram nas entranhas de suas próprias células e são capazes de exibir esses tesouros na parede da sala?

“Vivemos na era da personalização da massa”, explica outro membro da equipe, Adrian Salamunovic. “Já ocorre com os jeans, com os sapatos o com os carros.” Por que não com o elegante universo das artes? No site da empresa (http://www.dna11.com/), cada um pode escolher as diferentes cores, formas e dimensões das telas onde seu código genético será gravado. Ou, se preferir, pode encomendar um quadro realizado a partir de outro de seus traços únicos, embora um pouco mais demodê: as impressões digitais do seu polegar. Difícil resistir, então, à tentação de clicar no botão vermelho que diz: “Crie o seu”.

Talvez convenha lembrar, aqui, o que aconteceu com um dos pioneiros dessa onda da customização geral: o caso dos tênis Nike. Já faz alguns anos, essa empresa lançou uma campanha através do seu site, que permitia aos consumidores comprar tênis com qualquer palavra impressa, salvo termos preconceituosos ou palavrões. Mas um cliente espirituoso resolveu escolher “sweatshop”, uma expressão que designa as fábricas instaladas em países pobres que exploram crianças em condições próximas da escravidão.

A Nike, que sabidamente recorre a esse tipo de serviços, rejeitou a encomenda por considerar o termo “ofensivo”. É fácil deduzir, porém, que não é precisamente a palavra que é ofensiva, mas a própria existência de tais fábricas e o fato de serem utilizadas pela Nike. Quando o cliente contrariado resolveu divulgar as mensagens de e-mail trocadas com o pessoal da empresa, o caso se tornou famoso e virou um desastre para a Nike, que pensou seriamente em terminar com essa história de “personalização”.

Assim, no meio do caminho entre os tênis customizados da Nike e as sisudas pretensões da arte contemporânea, os quadros de DNA percorrem confortavelmente seu trajeto entre as belas artes e os bons negócios. Longe dos milhões de dólares que costumam faturar as peças assinadas pelas celebridades atuais da cena artística, os coloridos quadros genéticos custam apenas algumas centenas de dólares. Mas a quantidade compensa os dígitos que podem faltar, pois a demanda pela “arte personalizada” não pára de crescer.

Desde 2005, quando tudo começou, já foram vendidas milhares de telas para clientes de mais de 50 países. Nada mal: o negócio cresce a um ritmo de 20% ao mês. Hoje em dia, os retratos genéticos se encontram entre as mercadorias mais vendidas na loja do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, que ainda incluiu as criações da empresa canadense em sua cobiçada lista dos “produtos de design mais inovadores do mundo”.

É inegável que o DNA está na moda. Desde o estardalhaço midiático do Projeto Genoma Humano, o código genético se converteu na metáfora privilegiada para aludir à “essência” do que quer que seja. É ali que se esconde a verdade sobre cada um de nós. Nesses minúsculos enigmas codificados no interior das próprias moléculas, os genes teriam a capacidade de explicar a singularidade do que se é. Mesmo que tal linguagem ainda seja incompreensível e mesmo que os tais quadros não mostrem mais do que “uma imagem bonita, uma firma única, porém sem dados científicos”; ou seja: uma recriação visual, livre e falsa, dessa informação biológica individual… mas parece haver algo de aurático nessa exclusividade.

“Além disso, há uma grande explosão de interesse na ciência forense”, acrescenta com entusiasmo o mencionado Salamunovic. “Hoje os seriados de ficção sobre investigação policial e o DNA são um sucesso.”

Um desses programas de televisão, aliás, mostrou um quadro da DNA11 em um episódio recente. De acordo com o enredo, uma mulher suspeita de ter cometido um crime é detida quando os policiais decifram seu perfil genético a partir da pintura, sem necessidade de solicitar una ordem judicial ou de analisar qualquer material orgânico. É claro que isso jamais poderia acontecer na realidade, como a própria empresa esclarece… Mas quem se importa com isso? As vendas se multiplicaram após a emissão do seriado: todo o mundo quer ter o seu.

Considerando o sucesso da empreitada, é claro que a canadense DNA 11 não possui o monopólio desse mercado tão promissor. A companhia DNA Art Forms (http://www.dna-art.com/), de Nova York, também entrou no negócio, e é ainda mais audaciosa na sua proposta de fazer “arte personalizada”. Em vez de simplesmente imprimir as linhas e barras do código do cliente, a artista Catherine Dapra Zawierka pinta seu perfil genético e logo acrescenta na tela algumas impressões baseadas em conversas com os “retratados”, que podem ser indivíduos ou casais, famílias, grupos etc. Todo um mercado que se amplia, com o DNA como ponto de partida.

Assim, essas obras de arte personalizadas são o resultado de um trabalho interativo entre a artista e os clientes: “A viagem artística começa com você”, diz a apresentação do serviço no site da DNA Art Forms. “Criamos arte a partir das regiões únicas do seu DNA, da maneira original com que este é visualizado”, mas além disso “acrescentamos outros elementos e abordagens criativas, a fim de realizar uma obra de arte completamente personalizada que representa você”.

É claro que, neste caso, o preço aumenta: as versões mais básicas custam R$ 2.000. Mas, como se sabe, o dinheiro não é tudo nestas arenas. “Para mim, a maior recompensa do processo é a intimidade que provém de explorar a comunicação da sua individualidade”, diz a artista, “o ADN é apenas o começo”. O pior é que é verdade! A jazida desta “arte personalizada” se insinua inesgotável, com sua capacidade de explorar a nossa confusa mitologia tecnocientífica para tirar proveito do narcisismo do consumidor contemporâneo, tão sedento de aura como de distinção.

O negócio está apenas começando, mas já há outros nichos de mercado sendo explorados com muita audácia e visão de futuro, tais como os anéis confeccionados com osso cultivado, por exemplo. Trata-se das biojóias, um produto especialmente recomendável para os casais apaixonados.

Os bioanéis são elaborados com matéria óssea extraída da mandíbula ou de outras partes do corpo dos corajosos clientes, que depois é cultivada em laboratório. Com o passar do tempo, o tecido irá sedimentando nos moldes especialmente desenhados, com forma de anel. As jóias combinam essas formas lavradas em osso com metais preciosos tradicionais, “para que cada membro do casal tenha um anel realizado com o tecido do seu parceiro”. Os primeiros modelos já podem ser apreciados no site da Biojewellery (http://www.biojewellery.com/), fruto de uma parceria entre bioengenheiros do King College de Londres e designers do Royal College of Art.

Estes curiosos objetos tão contemporâneos parecem evocar, de maneira longínqua e nebulosa, as antigas relíquias cristãs. Aqueles fragmentos dos corpos de beatos e beatas de tempos imemoriais, carregados da aura mais sagrada, eram expostos respeitosamente junto aos altares das igrejas, em vitrines tão douradas como silenciosas. Hoje, porém, os relicários são feitos à medida do consumidor, em diversos tons e tamanhos (combinando com os sofás da sua sala). Além disso, podem ser comprados a prazo por qualquer um que disponha de um cartão de crédito… e ninguém sonha com ser nenhum santo. Mas, pensando bem, por que não um pequeno deus do espaço doméstico, nos tons pastéis desta temporada?
link-se

DNA11 – http://www.dna11.com/

DNA Art Forms – http://www.dna-art.com/

Biojewellery – http://www.biojewellery.com/

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Paula Sibilia
É professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia, do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (IACS-UFF). Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ e em Saúde Coletiva pelo IMS-UERJ, é autora do livro “O Homem Pós-Orgânico: Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais”.

1 – Benjamin, Walter. “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica” (Versão original, 1935). “Obras Escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política”. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1986.

2 – A revisão do artigo original teve início em 1936, mas só foi publicada vários anos depois do falecimento do autor, ocorrido em 1940. Benjamin, Walter. “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica”. (Segunda versão). In: Costa Lima, Luis (org.). “Teoria da Cultura de Massa”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 229.

Fonte: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2923,1.shl




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