Cobrança da Natureza
As autoridades se revezam e não conseguem conter os danos da ocupação sem planos em Brasília. Não há vacina contra o amadorismo. E a natureza começa a cobrar.
Após 124 dias de calor e umidade baixa, voltou a chover em Brasília, o que é bom para as nascentes. Mas ninguém pensa mesmo de onde vem a água até que começa e sentir falta dela em casa. Como diz Vinícius de Moraes, na “Sinfonia da Alvorada”, que fez com Tom Jobim: “No princípio, era o ermo”.
Depois, vieram toneladas de aço e argamassa e milhões de pessoas. Assim como taparam os buracos dos tatus, das corujas e das cobras, taparam na terra as portas das águas, que saem pertinho do céu, no planalto mil metros acima do nível do mar.
E os homens foram tomando a água da terra. Primeiro, apenas para misturá-la ao cimento, areia e brita, para fazer o concreto, para saciar a sede no ambiente seco e para tirar a poeira vermelha do corpo. Depois, para lavar os carros, dar brilho ao chão dos palácios e regar os jardins da grama que veio de fora. E ninguém se perguntou o que vem antes da torneira.
Ocupação apressada, improvisada e desordenada – e a natureza começa a cobrar. Ainda no domingo (30), simbolicamente, queimou dentro da área tombada como Patrimônio da Humanidade um parque chamado de “Olhos d’água”, sem prevenção contra o fogo, embora já tivessem ateado fogo em suas nascentes duas vezes nos últimos 40 dias.
As autoridades se revezam e não conseguem conter os danos da ocupação sem planos. Não há vacina contra o amadorismo.
Fonte: http://bomdiabrasil.globo.com/Jornalismo/BDBR/0,,AA1643982-3682-737264,00.html
Reportagem: Alexandre Garcia
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