O mais detalhado mapa sobre o aquecimento global foi divulgado em Paris. Os cientistas confirmaram o que já se suspeitava: é a poluição e a destruição da natureza que vêm provocando a mudança climática.

Reportagem: Sônia Bridi (Paris)

Os 2,5 mil cientistas reunidos em Paris divulgaram o mais detalhado relatório já feito sobre mudanças climáticas. O que nos espera? Dilúvios, seca, ondas de calor, ondas de frio, derretimento das geleiras, aumento do nível do mar.

Depois de processar uma imensidão de dados, em 23 modelos de computador, os cientistas também concluíram: com 90% de probabilidade, o aquecimento global não é resultado de um movimento natural. Foi, sim, causado pela atividade do homem.

Primeiro, acabam-se as dúvidas. O aquecimento global não vai chegar: já está aí e é provocado pela atividade humana. Sim, os combustíveis fósseis são os grandes culpados por um século que bateu um recorde chocante. Nos últimos 100 anos a temperatura subiu mais do que em qualquer outro século em milhares de anos. Até o final deste, provavelmente vai subir mais 3ºC. Pode ser menos – 2ºC. Mas pode chegar a 4,5ºC, ou mais.

Que tipo de mundo será esse? Para ficar no cenário mais provável: aquecimento de 3ºC. A grande barreira de corais da Austrália viraria um ecossistema morto. Um mundo nos extremos: ondas de calor, tempestades mais fortes, chuvas mais intensas.

Os furacões ficariam mais raros - e mais mortais. O hemisfério Norte sofreria mais do que o Sul. Até 2100 a calota polar do Ártico desapareceria completamente durante os verões. A Antártica teria mais neve. Os oceanos ficariam mais altos - de 28 a 43 centímetros.

É o suficiente para fazer das Ilhas Maldivas a Atlantis do século 21. Sobre o impacto na Floresta Amazônica, há dúvidas: apenas alguns modelos mostram que ela seria seriamente afetada.

O derretimento de geleiras vai provocar ainda mais escassez de água. A fome atingiria entre 100 e 550 milhões de pessoas e de 10% a 40% das espécies poderiam desaparecer da face da Terra.

Mas pode ser diferente, diz o representante do governo brasileiro no encontro em Paris.

“Os cenários de emissão, deste painel, não prevêem cenários com mitigação, com esforço dos governos como o Protocolo de Kyoto. Na medida que esses esforços aconteçam, esses cenários não se realizam. São cenários com tendências sem nenhum esforço concertado mundial para combater o efeito estufa”, aponta.

Nos últimos dois dias, o debate em Paris ficou concentrado na redação de um documento de 15 páginas que será encaminhado aos governos para que possam formular suas políticas de ação. O cuidado com a linguagem é para evitar que cada governo interprete as conclusões científicas do que jeito que quiser.

 

Miriam Leitão: Agora há 90% de certeza de que os problemas no clima são ação do ser humano. A bola está com os governos. Eles terão que dizer o que cada um vai fazer para evitar essa tragédia anunciada.

O Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC) é o braço científico da Convenção do Clima da ONU. Tudo se passa assim: 2,5 mil cientistas do mundo inteiro fazem reuniões e estudos durante anos. Vários brasileiros estão lá.

O Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC) é o braço científico da Convenção do Clima da ONU. Tudo se passa assim: 2,5 mil cientistas do mundo inteiro fazem reuniões e estudos durante anos. Vários brasileiros estão lá.Depois, tudo passa pelo crivo dos diplomatas para virar um texto. O último relatório foi em 2001. De lá para cá, duas coisas mudaram. Primeiro: ficou claro que o aquecimento global está acontecendo mesmo e por culpa do ser humano. Segundo, isso deixou de ser assunto apenas de cientista e ambientalista, e passou a ser tema de interesse geral.

Em Paris, nos últimos dias, houve muita briga diplomática para saber os termos exatos desse relatório final, discussão de cada palavra. Os representantes chineses empacaram uma hora numa única frase do relatório. Justamente a que dizia que “é o maior aumento da temperatura média já observado e se deve, muito provavelmente, à concentração, provocada pelo ser humano, de gases de efeito estufa”

Por que isso? Porque a China é o segundo maior poluidor e não quer aceitar limite à emissão. A Europa fez sua parte e está impondo às suas empresas mudanças radicais. O governo norte-americano resiste, mas está sendo empurrado por estados como a Califórnia.

A China diz que é um país em desenvolvimento e não pode ter limitação. Em 2001, os cientistas estavam divididos. Agora há 90% de certeza de que tudo é ação do ser humano. A bola está com os governos. Eles terão que dizer o que cada um vai fazer para evitar essa tragédia anunciada.

Fonte: www.globo.com/bomdiabrasil

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