A agonia da Serra da Cantareira

Por Rogério Grassetto Teixeira da Cunha*
A Serra da Cantareira, localizada no limite norte da cidade de São Paulo, é uma região especial por muitos motivos. Para começar, abriga o Parque Estadual da Cantareira (PEC), que, com seus quase 8 mil hectares, é a maior floresta urbana do mundo. O parque é moradia de diversas espécies de aves e mamíferos ameaçados de extinção, como, por exemplo, o bugio-ruivo, a onça parda, o macuco, a jaguatirica e o macaco sauá. A região abriga ainda diversas nascentes do sistema Cantareira, que fornece parte da água consumida na Grande São Paulo, daí inclusive o seu nome, pois Cantareira vem de cântaros, ou jarros d’água.

Um dado interessante é que quase nenhuma parte da floresta da Serra da Cantareira é primária (a floresta virgem do linguajar comum). A região já foi um dia ocupada por fazendas, mas começou a ser preservada já no início do século XX, quando foi percebida sua importância para o abastecimento de água da cidade de São Paulo. A mata então começou a regenerar-se e a região possui hoje uma das florestas secundárias mais antigas do Estado de São Paulo.

As ameaças ao parque vêm de todos os lados. Em boa parte de seu perímetro, ao sul, sudeste e sudoeste, ele se limita diretamente com a malha urbana de São Paulo, Guarulhos e Caieiras. Como se já não bastasse a enorme restrição que isto representa, pois não há uma zona de amortecimento de impactos, as ameaças vêm diretamente na forma de loteamentos clandestinos e processos de favelização. A origem mais profunda deste fato é, na verdade, a ausência de uma política habitacional séria e de um contingente de fiscalização que dê conta do enorme perímetro do parque. Kátia Mazzei, ex-diretora do PEC, lista ainda outros problemas em sua dissertação de mestrado: lixões, caça de animais silvestres, extração ilegal de palmito, pocilgas e depósitos de carros abandonados. Kátia lembra ainda que o problema dos loteamentos clandestinos de baixo padrão é mais grave ainda, pois, com os problemas de fiscalização, eles não são detectados a tempo e as pessoas mais pobres, que normalmente não conhecem as restrições ambientais, acabam sendo ludibriadas e comprando os terrenos.

Do outro lado do parque, ao norte, em direção a Mairiporã, o parque limita-se com diversos bairros com grande percentual de arborização, porcentagem esta que vem diminuindo em ritmo assustador. O problema aqui vem da outra ponta do espectro social, dos loteamentos de padrão mais alto. Com a deterioração da qualidade de vida em São Paulo e a crescente valorização da natureza, mais e mais pessoas buscam alternativas de moradia em locais mais afastados.

O crescimento, porém, é desordenado, com uma grande quantidade de construções em curso. Pior: praticamente não se vê nenhum movimento por parte destes loteamentos ou da prefeitura no sentido de reduzir ou estancar o número de novas obras, nem de adquirir espontaneamente áreas para preservação, muito menos de planejar-se a localização dos desmatamentos para que se preserve um mínimo de continuidade entre os fragmentos de mata que forem sendo gerados. É a velha questão dos interesses financeiros sobrepondo-se aos interesses ambientalistas, uma vez que o desenvolvimento na região gera mais impostos para as prefeituras, e os projetos imobiliários na região possuem grande potencial de comercialização, geram empregos na construção civil e movimentam o comércio local. A floresta e a preservação nem são lembradas quando todos estão ganhando dinheiro.

Vários locais não podem ser desmatados por força de lei: florestas em estado avançado de regeneração, áreas próximas a nascentes, rios e riachos, encostas muito íngremes e topos de morro. Contudo, por diversas razões, a fiscalização é extremamente ineficiente, havendo inclusive fortes rumores sobre corrupção. Assim, diversos proprietários, por ignorância ou má-fé e, de certa forma, conivência dos órgãos que deveriam fazer este controle (seja por ação ou omissão), acabam desmatando mais que o permitido ou construindo em locais proibidos.

Porém, mesmo que todas as obras respeitem rigorosamente as leis existentes, é inevitável que desmatem uma parcela considerável dos terrenos para ceder lugar às casas. Com isto, perdem-se, além das árvores em si, locais de abrigo e alimentação para fauna. Pior, a descontinuidade entre as diversas “ilhas de mata” vai aumentando. A tendência é haver um sem número de pequenos fragmentos isolados no futuro, o que é extremamente negativo para espécies que necessitam de áreas contínuas, como os macacos, por exemplo, ou que sejam avessas à travessia de áreas abertas.

Com este quadro, a região ao norte do parque, que poderia constituir-se em uma área de amortecimento de impactos importante e, quem sabe, do estabelecimento no futuro de corredores florestais com outras áreas (na serra da Mantiqueira principalmente), vai descaracterizando-se.

A solução da redução progressiva na cobertura florestal é bastante complicada, uma vez que o alto preço do terreno na região dificultaria muito qualquer tentativa de aumento do parque em si, dado o custo para o governo com a desapropriação. Além disso, qualquer idéia alternativa inevitavelmente esbarra nos direitos dos proprietários de terrenos ainda não desmatados.

Há mais de 20 anos, minha família também decidiu mudar-se para a Serra da Cantareira em busca de uma melhor qualidade de vida do que a da já extremamente complicada cidade de São Paulo. Contato com a natureza, muito verde, ar puro, tranqüilidade, tudo pesou na decisão de meus pais. Certamente isto influenciou também a minha decisão de cursar biologia e a minha crescente preocupação com o meio ambiente. Coincidentemente, desenvolvi os trabalhos de campo de minha tese de mestrado, voltada para o comportamento do bugio-ruivo no PEC (quando então confirmei o status de fazenda em tempos antigos, ao tropeçar em diversos pés de café no interior da mata). A despeito da aparente contradição de denunciar os problemas causados por novas moradias, sendo eu mesmo um morador da região, é com muito pesar que vejo a deterioração em ritmo muito acelerado da região.

* Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.




Se você gostou deste artigo, deixe um comentário abaixo e considere
cadastrar nosso RSS, para ser notificado nas próximas atualizações do blog.

Comentários

Parabéns, pela sua preocupação com a serra da cantareira. Fui subprefeito do Jaçanã e Tremembé,onde fizemos vàrias intervenções para combater qualquer tipo de violência contra a mesma, hoje estou na prefeitura de Guarulhos, continuando o trabalho de preservação da serra, principalmente numa localidade chamada barrocada que faz divisa com São Paulo.
Estou a disposição para ajudar a combater todo os crimes que a nossa serra da cantareira, vem sofrendo,

abraços,

Marco Antonio Silva

Boa tarde, não estou fazendo um comentário, preciso de uma informação, preciso saber se posso ir até a serra da cantareira com um micro-ônibus.

Cantareira é um patrimônio ambiental da humanidade e como tal deve ser observada;é urgente a aplicação de uma legislação e fiscalização que impeçam qualquer intervenção à mais nesta região,é isto ou nada basta observar fotos aéreas sequenciais das duas últimas décads e observarão o descao público e privado,alias nos ultimos tempos os que tem mais contribuido para esta devastação tem sido aqueles que vão buscar o ar “puro” da região,verdadeiros criminosos do meio ambiente. Francisco(agronômo)

Sr. Rogério, boa tarde

Gostaria de saber sua opinião qual a importância do Parque da Cantareira para a cidade de São Paulo.

Att

A SERRA DA CANTAREIRA É FASCINANTE, UM PARAISO NO MEIO DO CAOS DE SP!!!

esta bom mas falta quais animais estão em extinção e por que

É muito importante se importar com nosso habitat,preservar é o continuismo da nossa vida.

Parabéns pelo seu artigo. É muito bom saber que temos colegas precupados
com a devastação ambiental. Na próxima semana estaremos comentando sobre a devastação na serra da cantareira
se puder visite nosso blog: http://mikamienvironmentalblog.blogspot.com
ou para facilitar e só clicar “ADILSON MIKAMI”, “INTRODUÇÃO AO
MEIO-MBIENTE”, “COMO NASCEU O PLANETA”, “COMO ESTÁ O PLANETA”, etc.. no GOOGLE, YAHOO, UOL…

Muito interessante seus comentários sobre a ocupação irregular na Serra da Cantareira. Com certeza, é imprescindível que o poder público tome medidas definitivas para a preservação dos mananciais e dê a importância devida à fiscalização dessas áreas.
A título de informação, a Prefeitura de São Paulo em parceria com o Governo do Estado, criou o Projeto Defesa das Águas que tem como um dos principais objetivos, evitar a ocupação irregular e recuperação das áreas degradada nas regiões dos mananciais.
Mais informaçãoe no site : http://www.prefeitura.sp.gov.br

Adorei ler este artigo. Moro na Serra há 2 anos e vim por razões semelhantes às de seus pais. Comprei uma casa que foi construida há 30 anos. Hoje, percebo o quanto este local deveria estar preservado. Penso que nenhum de nós deveríamos estar aqui. É a casa da fauna local e não nossa.Tenho me preocupado muito, mas tenho ouvido dizer que hoje já está ocorrendo uma dificuldade maior para se construir aqui. Ouço dizer que a prefeitura finalmente tem recusado os pedidos de aprovação de projetos residenciais. Isso é verdade? O que está sendo feito para bloquear a especulação imobiliária? Já tem muita gente morando aqui! E pior, muita gente que não tem a menor noção de preservação ambiental. Tenho me preocupado muito c/ o que tenho visto por aqui. Gostaria de fazer algo, mas não tenho idéia de quê!

Comente este artigo

(obrigatório)

(obrigatório)