Biotecnólogo: uma carreira de futuro no Brasil?
Pelo terceiro ano consecutivo, o vestibular de inverno da Universidade Estadual Paulista, Unesp, apontou o curso de Biotecnologia como o mais concorrido entre os estudantes. Neste ano, 1.269 pessoas disputam 40 vagas do curso de graduação. A média é de 31,7 candidatos por vaga. Apesar de acirrada a concorrência, a relação de estudante por vaga diminuiu. Em 2005, o número de inscritos por vaga chegou a 43 interessados.
Na análise da presidenta da Associação Nacional de Biossegurança, (ANBio), Leila Oda, “os números apresentados pela Unesp devem ser analisados com atenção. A diminuição de interessados em cursar Biotecnologia significa, que, a longo prazo, o País vai perder inteligência e competitividade neste campo, pois não vai formar mão-de-obra suficiente para atender as demandas do mercado internacional”, afirma.
Segundo Leila, a razão primordial para a diminuição do número de interessados pelo curso de biotecnologia está na ‘falta de solidez’ do marco regulatório brasileiro. “Aprovamos uma Lei de Biossegurança moderna e ampla, que poderia impulsionar o Brasil a sair da condição de emergente para super potência, no campo da pesquisa biotecnológica. Entretanto, a morosidade dos trabalhos da Comissão Nacional de Biossegurança (CTNBio) e as complicadas interfaces da Comissão com o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) paralisam a pesquisa científica no País, desestimulando os mais jovens a ingressar na carreira”, lamenta a presidenta da ANBio.
Talentos desperdiçados
Leila Oda destaca que publicações científicas internacionais, como, por exemplo, a revista Nature, já noticiaram, por diversas vezes, que a ciência do terceiro mundo vem progredindo bastante. E o Brasil é um dos expoentes neste processo de evolução, ganhou a capa da revista inglesa com a reportagem sobre o seqüenciamento do genoma de pragas da lavoura.
Mas o talento reconhecido não garante o desenvolvimento das pesquisas. “No Brasil, há uma lacuna entre os cientistas e os departamentos regulatórios. Os cientistas brasileiros estão sendo formados há mais de 30 anos no Brasil – temos bons exemplos na Embrapa – muito mais tempo do que os profissionais que trabalham, hoje, com a regulação da pesquisa e da atividade científica no País. Para transformar ciência em tecnologia, a legislação deve apoiar o trabalho dos pesquisadores e não confrontá-lo”, afirma Leila Oda.
Para a cientista, mais incompreensível do que investir e, ao mesmo tempo, impedir o avanço da atividade de pesquisa em biotecnologia é anunciar novos projetos energéticos, como os programas de geração de bioenergia, “que não podem seguir adiante, prescindindo da pesquisa em biotecnologia”, diz a presidenta da ANBio. “A falta de unidade das ações do Governo, logo, logo, vai fazer com que estes projetos não avancem devido a entraves burocráticos”, diz Leila.
Mercado de trabalho
E diante de tantos obstáculos para o avanço da ciência, como fica a escolha da carreira? Leila Oda tem palavras de incentivo para os interessados em mergulhar nos estudos da Biotecnologia. “Para traçar um cenário mundial da importância da ciência, basta citar o aumento populacional, o aparecimento de doenças como a AIDS, a expansão da gripe aviária… A fome, as doenças e o desafio de melhorar o nível de vida da população mundial são as molas propulsoras da pesquisa científica. Sempre haverá mercado de trabalho, o que precisa ser assegurado são condições dignas de realização das pesquisas em biotecnologia no País”, diz a cientista.
“O mercado de trabalho para os graduados em Biotecnologia está em franca expansão”, declara Leila Oda. A presidenta da ANBio enumera as atividades que o biotecnólogo pode desenvolver: trabalho técnico ou de pesquisa em clonagem, terapia gênica, transferência de embriões, biomateriais, genoma, proteoma, biomecânica e biodisponibilidade, alimento, engenharia genética e de tecidos, biotecnologia ambiental, nanotecnologia, bioeletricidade, inseminação artificial, bioinformática, biochips, redes neurais e construção de equipamentos biomédicos e polímeros biodegradáveis. “Nas empresas e indústrias, o potencial é enorme”, conclui.
Por: Aretha Amorim/Júlia Meriqui
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