Condomínios irregulares devastam meio ambiente

Cecília Brandim e Laís Garcia
Do Correio Braziliense

Com a varredura que a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Distrito Federal (Semarh) decidiu fazer nos processos dos condomínios irregulares, encalhados no arquivo do órgão há vários anos, se descobrirá uma tragédia. Em duas décadas de expansão sem qualquer controle, os loteamentos ao redor da capital planejada provocaram extensa devastação no cerrado. Os resultados estão por toda parte, traduzidos em escassez de água, erosões e contaminação de lençóis freáticos. Danos que podem ser revertidos com a retomada do controle do uso do solo. Mas a tarefa, que envolve moradores e órgãos ambientais ligados aos governos local e federal, é lenta.

Apesar de ter começado a analisar caso a caso para encontrar saídas à situação dos loteamentos, o GDF não pode descumprir a legislação ambiental. Em alguns casos, a correção pode exigir a derrubada de casas, o fechamento de poços tubulares e a recuperação de matas destruídas.

A principal preocupação do hidrogeólogo José Eloi Guimarães Campos, professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), é com os mananciais do DF. O problema está na ausência de pesquisas amplas, que apontem a real capacidade de abastecimento da população com as águas extraídas dos lençóis freáticos.

No Setor Habitacional da Contagem (Sobradinho), por exemplo, universitários monitorados pelo professor notaram o sumiço de nascentes. Próximo ao local, há loteamentos de média e baixa renda, chácaras e grande concentração de condomínios de média e alta renda, no chamado Grande Colorado.

Sem vazão
A região é uma das principais concentrações de residenciais no DF à espera da regularização. Todos são abastecidos por um único lençol freático, atingido por poços tubulares profundos. “Há 10 anos, a vazão era de 10 mil litros por hora. Hoje há locais onde não passa de 3 mil litros por hora”, detalha José Eloi. A redução pode ter sido provocada não apenas pela retirada de água dos condôminos, mas também pela dificuldade de reposição dos recursos hídricos. Com o solo asfaltado, há pouca recarga do lençol, que se dá pela água da chuva.

Os córregos são os primeiros a sentir os efeitos da devastação. Um dos casos mais graves do DF ocorre às margens do córrego Paranoazinho, em Sobradinho II. Ele corta o Setor Habitacional da Contagem, cujos condomínios aparecem na lista dos casos já analisados pela Semarh.

Os representantes dos residenciais foram convocados para ir ao órgão saber o que devem fazer para legalizar a parte ambiental da área. Uma erosão de 10m de profundidade e 30m de largura à beira do córrego ameaça os moradores dos condomínios com casas próximas ao buraco: Beija Flor, Planalto, Residencial Vivendas Alvorada e Vila Rica.

“Só este ano, a erosão avançou mais de um metro no meu terreno”, reclama Creuza Rosa Costa, moradora do Vivendas Alvorada. Outras 50 propriedades estão na mesma situação. Segundo moradores, um homem morreu no fim de 2005 depois de cair do barranco.

O síndico interino do Condomínio Vivendas Alvorada, Manoel Pinto de Barros, diz que tentou reverter a situação, sem sucesso. “Chegamos a plantar árvores e arbustos para evitar que a terra cedesse mais, além de tentar convencer os moradores a construir a pelo menos 15m do buraco.”

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