Os limites do crescimento econômico
por Danilo Pretti Di Giorgi
Após soar o apito final na Alemanha – espero que decretando mais um título mundial de futebol para o Brasil, consagrando definitivamente o gênio de Ronaldinho Gaúcho –, três palavras vão começar a ser repetidas como um mantra por candidatos a todos os cargos em disputa nas eleições de outubro deste ano: crescimento da economia. O crescimento vai ser vendido como a panacéia que resolverá todos os problemas da nação. A oposição vai mirar suas metralhadoras giratórias no “pífio” crescimento deste ano, comparando o percentual ao alcançado por outros países do continente e do mundo. O governo vai devolver comparando seu resultado em quatro anos com a média durante o reinado tucano, vencendo por uma cabeça de vantagem. A China será citada como exemplo a ser seguido, com seus dois dígitos de expansão no ano passado. Até mesmo candidatos a cargos legislativos darão preferência ao tema para seduzir o eleitor. Do PCO ao PFL, o coro vai entoar o mesmo tom.
Realmente não é fácil ir contra esta maré. Por pior que seja a distribuição de renda no Brasil, é inegável que a expansão do PIB acaba melhorando a vida de quase todos. Se o país tivesse crescido 10% e não 2,3% no ano passado, representantes de todas as camadas sociais se beneficiariam. Mesmo com a vergonhosa distribuição de renda no país, quando o tamanho do bolo aumenta, as migalhas também se tornam mais fartas (na forma de caixas de papelão de eletrodomésticos novos para os catadores de lixo, por exemplo).
Mas a coisa muda de figura quando falamos seriamente sobre meio ambiente e quando pensamos no que vai acontecer no mundo que queremos deixar para as futuras gerações. Não há mágica que permita a expansão contínua e constante da economia, pois os recursos necessários para a produção dos bens de consumo são limitados. Alguns deles são finitos e outros renováveis, mas nem uns nem outros podem suportar por muito tempo um crescimento desenfreado da economia.
Talvez você nunca tenha ouvido falar em Herman Daly. Este norte-americano nascido em 1938 é talvez o principal “economista ecológico” do mundo. Professor de grandes universidades durante a maior parte de sua vida, Daly ocupou por seis anos o prestigioso cargo de senior economist no incipiente Departamento Ambiental do Banco Mundial. Em 1994, cansado de tentar sem sucesso mudar a forma de pensar dos economistas conservadores, pediu demissão e voltou a dar aulas e a escrever livros e artigos bombásticos.
Para se ter uma idéia, ele defende que, para que a economia seja sustentada no longo prazo, devemos obedecer a três preceitos fundamentais: a) limitar o uso dos recursos para que os rejeitos possam ser absorvidos pelo ecossistema; b) explorar recursos renováveis de forma a não exceder a capacidade do ecossistema de regenerá-los; e c) exaurir recursos não-renováveis a um ritmo que não exceda a taxa de desenvolvimento de substitutos renováveis. Não é pouca coisa.
Embasado em ricas e revolucionárias teorias econômicas que não caberiam no espaço deste artigo, Daly defende uma radical mudança no raciocínio econômico, que passaria a considerar mais explicitamente que a biosfera que lhe dá suporte é finita. O professor afirma que o crescimento da economia está afetando cada vez mais o ecossistema à sua volta e isso causa o sacrifício do que chama de “capital natural” (os recursos naturais em geral, como peixes, minerais, petróleo), que valeria mais do que o capital criado pelo homem (estradas, fábricas, eletrodomésticos). Aí começa o que ele chama de “crescimento deseconômico”, que produz males mais rapidamente do que bens, o que nos torna mais pobres e não mais ricos (como, por exemplo, as atividades madeireiras na Amazônia).
Segundo seu raciocínio, a única forma de resolver este problema é exatamente interrompendo o crescimento econômico, pois, considerando-se que, à exceção da energia solar, a biosfera é finita, não cresce e é fechada, o subsistema econômico tem que parar de crescer em algum momento. Este momento já teria passado, segundo os cálculos de Daly. Se não respeitarmos os limites físicos inerentes ao ecossistema mundial, não há como mantê-lo funcionando no futuro. Contrariando praticamente todos, em todos os países do mundo, que comemoram recordes na produção de automóveis e nas safras de monoculturas como grandes vitórias da sociedade, ele defende o fim do crescimento econômico.
De forma incrivelmente lúcida, Daly afirma que os padrões econômicos defendidos pelo que chama de economistas neoclássicos foram definidos há muitos anos, para lidar com um “mundo vazio”, quando a idéia de 6,5 bilhões de habitantes e da escassez de recursos não era considerada.
Para ele, devemos passar a produzir bens com vida útil mais longa, de forma que consumam menor quantidade de recursos naturais, dando preferência para a manutenção do antigo que à compra de um novo; limitar os rendimentos conforme a capacidade do meio ambiente de repor o que é consumido; taxar não a renda (o que queremos), mas sim o que queremos evitar (esgotamento de recursos e poluição).
Daly sabe que o sucesso de suas propostas depende de enorme mudança de visão de mundo de todas as pessoas. Ele sabe que muitos taxarão tal projeto de politicamente impossível. Para estes, ele tem resposta pronta: “a alternativa a uma economia sustentável, que mantenha permanente crescimento, é biofisicamente impossível. Ao escolher entre enfrentar uma impossibilidade política e uma impossibilidade biofísica, eu escolheria a primeira opção”. Para saber mais sobre as idéias do economista, visite o link www2.uol.com.br/sciam/conteudo/materia/materia_81.html
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista
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